Instante de poesia

O dia seguinte ao próximo
será de descobertas
assim como este instante que me convoca:

– te dedicas ao que de fato importa
ao que de fato
comporta
teu peito em demasia.

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Das tormentas do homem (pt. 2)

Passados alguns poucos dias desde a primeira parte desta história que finaliza hoje, com a devida esperança de que o desconforto ou qualquer coisa que tenha despertado àqueles que a acompanharam tenha se dissipado – por alguns poucos, ao menos – continuo aquilo que ainda hoje me enrubesce de raiva quando volto a lembrar.

Já no terceiro dia, rumo ao mesmo lugar, na mesma parada de ônibus dos subsequentes dias aqui compartilhados, eu estava sozinho. Não haviam idosos, nem jovens, nem aqueles de meia idade por perto. A senhorinha, frente aos acontecimentos, aparentemente abriu mão da pontualidade que lhe é característica para não ter de lidar com a grosseria alheia. Ou desistiu de ir ao destino que lhe esperava, simplesmente.

O motorista em questão, e agora devo ser justo, seguia pontualmente o itinerário. Às nove e meia da manhã, vinha lá com seu ônibus e sua gente aparentemente acostumada com os desprazeres daquela presença à frente do volante.

(Deixo para o leitor o diagnóstico do que pensavam os passageiros que lá dentro se acomodavam quando ouviam da boca áspera que os conduzia que o ônibus estava com defeito, tendo a certeza de que ele não mostrara nenhum sinal de mau funcionamento até ali; e quando, ao dobrar na rua assegurada pelo motorista como o sítio escolhido para tratar de consertar o que misteriosamente havia quebrado, se revelasse a mentira no continuar do trajeto.)

Dei sinal, com a língua pronta e ensaiada para responder à esfarrapada desculpa de sempre. Mas, para minha genuína surpresa, dessa vez me foi permitido o ingresso. Indubitavelmente, fui atingido pela ideia de que o problema do motorista estava no embarque de idosos.

Com suas artroses e osteoporoses e tudo que vem com a idade para nos entravar o passo, é claro que o itinerário, tendo seu horário tão bem respeitado até aqui, sofreria com o atraso dos velhos; e o pobre motorista, cumpridor do honesto trabalho de levar cada vivente para os destinos que lhes cabem, não poderia sofrer um vexame desses.

Do assento em que me acomodei, reparava pelo retrovisor um homem de mãos ao volante e espírito aflito. Quantas tormentas devem seguir o dia deste sujeito, desde o momento que põe os pés para fora da cama até a hora em que as recolhe para seguir rumo a mais um dia, este inevitável recurso da natureza, que nos abranda as tormentas do espírito e que, neste caso, parece ser incapaz de tal tarefa.

Das tormentas do homem

Há dias em que a casa, quando se desprende da nossa presença, denuncia em silêncio, quando pomos o pé para longe dali, que este dia será de algumas tormentas, quase todas comuns, coisa do cotidiano: como o céu que, mesmo dando alerta de cinza para acima das cabeças, aproveita o desleixo que acompanha a pressa e, em sobreaviso, como se aconselhando, solta ‘’e o guarda-chuva, não leva?’’.

Mas, há dias que a tormenta aplaca o espírito. Uma coceirazinha atinge o pé do ouvido e sentimos todos, mais dia menos dia, quando acontece.

Pois que esse dia me achou. A parada de ônibus já tinha dos seus quando me pusera na soma dos que esperam. A companhia da senhora que marca presença pontualmente no mesmo horário que eu também por lá estava, e com ela a reclamação audível de sempre: os motoristas daquela linha são todos uns grosseiros.

Disso eu sabia. Todas as almas que sobem naquele ônibus sabem. Mas, um motorista em questão, do alto de sua ranzinzice, trabalha como um homem encalecido de tristezas e que, por isso, as transfigura, na contrariedade do delicado ofício de transportar vidas, em grosseria gratuita no espírito de gente como aquela senhora.

Quando por fim chegou, o dito motorista não parou ao sinal comum daqueles que o esperavam. Aliás, ele até parou, sim, mas para avisar, com nublado ódio por entre as palavras ditas: ‘’não pode subir, o ônibus está com defeito, vou parar ali na frente.’’

Tudo bem. A quem interessa andar um quarteirão em um ônibus condenado ao conserto em via movimentada?

No entanto, no dia seguinte, cópia fidedigna do anterior, com a diferença de estar na companhia não de uma, mas de duas senhoras idosas, a cena se repetiu: o mesmo delicado motorista, com a mesma delicadeza de sempre, interrompeu o ingresso de uma das senhoras que tomava a frente com o mesmo tom nos dizeres.

Imediatamente, ao ouvi-lo começar a mesma frase, me afastei. Disse em seguida às senhoras e a todos que ali estavam que a mesma atitude foi tomada por ele no dia anterior.

Em meio a protestos e palavras que não repetirei na crônica, mas que são de teor certamente imaginado pelo leitor, comecei a simular à mente situações de confronto com o sujeito, quase sempre com fins violentos, em ato-reflexo de quem precisa descarregar o peso da raiva que cai sobre a cabeça e as vértebras que a sustentam.

Aos que aqui chegaram, compartilhando ou não deste sentimento que nos é a todos natural, peço que acompanhem a continuação da história na próxima semana, posto que a crônica já muito se alonga, e é de meu encargo preservá-los do cansaço.

Até.

Matéria prima

Estou eu pensando nas ruas de Fortaleza. Daqui de dentro avisto tempos idos em passos que se misturam pelo Centro. Não mudou muita coisa desde que, menino, vinha por estas bandas na companhia de minha mãe em busca de algo, quase sempre um utensílio doméstico, de preço justo, de modo a não nos subtrair todo o saldo do fim do mês.

O furor da região ainda me contagia e, diante disso, acompanho agora a menina pequena atravessar a poça que se forma à beira da calçada. Sem ajuda do responsável que lhe acompanha, salta, em ato inocente de independência, em direção a rua que dá para um Supermercado, destino dos dois.

Tem um ar de transcendente o saltar inocente dos miúdos, como se o desprender do chão, ainda que por alguns segundos, lhes aproximassem do céu; como se reflexo tão corriqueiro – o de não se molhar frente a uma poça de água – lhes concedesse caminho para perto de São Pedro, dono dos humores do tempo.

Posto que o céu é de nublagens típicas desta época do ano. Fortaleza se desmancha em chuva: sinal de que mais alagadiços se formarão nas beiradas de calçada ao longo do período; e que crianças e adultos e todos aqueles que marcham em suas direções terão a chance de cortar caminho, ainda que por alguns milésimos de segundo, para o teto que nos cobre a todos.

Obviamente, sem que percebam, estão eles contribuindo para o ofício deste que vos escreve, em dia de torrenciais chuvas na capital, provando, mais uma vez, o que afirma o capítulo 1, tópico 3 do manual do cronista:

– Tudo o que é desinteressante ao primeiro olhar servirá de matéria-prima para a crônica.

O amanhã

É um exercício de coragem
ler  o jornal do dia.
A febre é amarela
e acompanhada de ignorância.

Daqui acompanhamos, de estômago embrulhado
o vidro preto dos smarts
refletindo mais verdades
que as notícias nos jornais.

O país tem altura de montanha-russa
mas a direção é sempre oposta
mas a queda é sempre alta
em um declive infinito.

O amanhã, senhores
será comemorado
por não existirmos.

(25/01/2018)

Boa notícia

Era perto das sete da noite. Tudo sendo mais um simulacro dos dias daquela semana: a luz meio fraca dos postes revelando as pessoas que chegavam e partiam de suas paradas; o medo compartilhado de estar exposto em um ambiente onde a paciência sempre falta quando temos a casa como destino final; olhares angustiados que reparavam nos pulsos em busca de uma explicação para a demora do ônibus e coisas do tipo.

Foi quando notei algo destoar com amor e inocência a rotina das coisas: um cachorro, desses vira-latinhas simpáticos com cara de quem tem muitos amigos, vinha atravessando com sua dona a rua à frente da parada de ônibus. Vinha ele na ânsia de quem desbrava o desconhecido, certo de que ali estava um continente imaculado à espera de ser por ele conquistado – lê-se ‘’conquistado’’ como a possibilidade de sair marcando território do jeito que a natureza lhe permite.

Como é minha a crônica, sinto-me na obrigação de batizá-lo para que ganhe vida aqui também: pois que Carlinhos vinha a carregar a dona pela rua em direção a calçada, quando esta parou.

Eu e mais duas pessoas que ali estavam ficamos de atenção deitada sobre a cena: a senhorinha – sim, digo-lhes agora que era uma senhora a dona do cão; e não, não é minha a intenção de compadecer-te com esta informação, leitor, visto que relego isso ao acaso – a senhorinha prendeu o bicho em um dos postes de luz que iluminam a frente de uma faculdade que ali fica, e subiu por suas escadarias.

Carlinhos ficou lá, estático. O rabo esmoreceu no dissabor da distância que se alongava entre ele e a dona. A luz fraca do poste incidia sobre ele de um jeito triste, deixando a cena um tanto mais melancólica.

Que será que pensava o bicho… aliás, refaço a questão: que será que pensam os bichos quando estão diante de situações como essa? Que aquele é o derradeiro contato com seu tutor, que o abandonou a sorte por razões complexas demais para a sua cabecinha, que agora se movimenta de um lado para outro à espera do que não mais vem?

No hábito doído que tem os humanos de se colocarem na situação do protagonista, me descobri sentindo algo para além do abandono. Além, porque me atesto incapaz de descobrir o que sente um bicho – o que sentiu Carlinhos – em situações do tipo.

Não tenho a lucidez necessária. Não temos, nós. Nos falta o ar de nobreza e compaixão que abastecem à rodo o coraçãozinho pequeno destas criaturas.

Mas, para minha sorte – e talvez para a sua, leitor – o desenrolar da cena não foi de todo dramático. Quando a senhora surgiu novamente no alto da escadaria, enquanto se demorava em conversar com um homem, Carlinhos desmanchou-se do transe em que estava e acenou com a língua para a dona. Enquanto ela descia as escadas, o bicho ia se dialogando com o calor da proximidade de sua tutora batendo as quatro patinhas no chão, como que sapateando a felicidade.

O reencontro aconteceu com a dona abrindo os braços em direção ao bichinho, que a recebeu com as saltitâncias de quem acaba de enxergar uma boa notícia.

A espera de Carlinhos havia acabado, e ela foi recompensada com a demarcação daquele território ao estilo que nós bem sabemos. A minha continuou por mais alguns minutos, e não foi no ônibus entupido até a porta que se deu minha retribuição pelos minutos de pé.

Para sorte minha, o dia ainda não havia terminado. Aliás, só teve início quando fui ao encontro daquela que tem flores a ornar as mãos: momento em que a boa notícia – a minha boa notícia – veio sorrindo, a caminhar em minha direção.

Seis andares

Seis andares tenho nos pés
Tenho nos pés altura
A se considerar.
Não vejo nada além de mim
Posto que já desce a noite
Com seu rebento de brilhantes.

Seis andares tenho nos pés
Tenho nos pés altura de janela acesa
De gaiola suspensa no terraço da varanda
Tenho a altura de quem enxerga o som
Dos carros
E eles são tantos…

Seis andares tenho nos pés
Tenho nos pés a altura dos que a tudo possuem
Mas só enxergo o escuro do que seria
Se a tudo tivesse
Se a tudo fizesse
O que nem eu faria.

O ofício do ofício

Que me perdoe o leitor, mas, quando ando com dificuldades, me ponho metalinguístico.  Eis mais um caso:

Tenho a sensação de que, se parar de fazer o que me proponho a fazer, desaprendo. Esqueço. Tudo que foi acumulado nesses tempos vai esmorecendo, esmorecendo, até chegar no momento em que nem lembro a razão de estar fazendo aquilo. Como se tal ofício tomasse as rédeas da minha vida e, se demonstro mínimo desleixo, Ele desce da carruagem, abandona os cavalos e vai, a seguir seu rumo sem destino.

E quando vai embora, vai sem deixar lembrança. Nunca existiu. Qualquer pingo de vivência deixada à memória se faz evaporar pela minha omissão frente ao que deveria ter feito. É caso complicado, esse. Ora sinto que a coisa está andando, e que não vai embora tão cedo porque estou fazendo o que manda. Aí percebo que nossa relação abusiva, por vezes, tende a me nublar os sentidos. Isto é, torna-se insustentável enxergar o que devo fazer. Em consequência, não faço.

É quando penso ter desaprendido. Pior: desaprendido algo que nunca voltarei a ter; a horta que não mais será regada devido ao atraso na conta d’água. Até que resistirá alguns poucos tantos sem água. Sei que não há tantas razões para alvoroço. Acontece que, nesse intermédio, fico eu sem saber o que fazer, como fazer ou porquê fazer. A angustia no seu sentido mais puro.

Pois que estou agora mesmo nessa situação. A semana inteira repleta de afazeres me distanciou do propósito. Ele, onisciente que é, já me impôs o castigo de sempre: desperta-me o desespero de não saber mais fazer o que me propus, a princípio, fazer.

Analisando esse cenário como um estranho, como quem vê do lado de fora, através da vidraça, um casal a brigar eloquente numa mesa, percebo que os gritos de urgência do ofício não são condizentes com minha realidade. Sou disciplinado, ora. Tenho meus desleixos, claro – quem, além de meu ofício, me apedrejaria por isso?-, mas penso não fazer o menor sentido isso de ajoelhar-me aos seus quereres.

No entanto esse assalto, essa lucidez repentina que me ilumina brevemente o pensar logo se apaga; é quando me encontro indefeso, como criança perdida da mãe no meio das gentes, a gritar por aquela que sempre esteve e sempre estará ao alcance de um berro bem gritado. Pois quando se encontram, expiram tudo que enrugava o coração em desespero. Somente no encontro, quando se tocam as peles, é que o mundo ao redor dos dois volta a iluminar-se de sentido.

Embora tanto lute contra os mandos do ofício, acabo sempre a voltar para seus braços: essa coisa por vezes doída, por vezes insone, que me põe a escrever. Pois que a palavra vai continuar me vigiando a tapas sempre que resistir a seus relâmpagos.

A submissão a esse Deus que tudo faz, que tudo sabe, que tudo manda; esse ajoelhar, penso agora, é que separa os bons dos maus escritores. E a mente vazia, por vezes confusa, tende a esconder dizeres por debaixo. Visto que a vida respira durante a descoberta: o ofício que termino agora, nesta frase.

Digo para continuar a dizer

Há tempos não paro para isto: escrever. Digo, até paro. Até escrevo. Mas o que ocupa a folha é de muita importância para outros. Outros que pagam em dia, para mostrar resultado aos outros que investiram uns tantos em busca de resultado, seja lá o que esta palavra signifique. Disso me abstenho. Escrevo somente pela busca. O que pretender vir depois será muito bem acolhido.

Mas estive parado. Parado, mesmo. Apático. A inércia de quem quer muito e pouco ao mesmo tempo e, por isso, acaba fazendo barulho dentro do próprio silêncio. Até tive a oportunidade de sentar à escrivaninha e pensar com os meus. Ensaiei umas palavras ali, respirei uns versinhos acolá, mas nada que ganhasse a sobrevida necessária para encorpar o ofício, este que agora me enxerga com a suspeita de uma criança ressentida.

Deve ser a falta de prática. Coisa que pode ser resolvida sem ajuda de cirurgia ou internação em UTI. Contudo, confesso existir a possibilidade do uso de algumas miligramas de vergonha na cara. A manipulação deve ser feita à noite, sempre antes de dormir, de modo a devolver ao sonho sua capacidade de redescobrir funções em existências alheias.

Não que eu esteja comparando a minha situação confortabilíssima com a de um moribundo entre a vida e a morte. Digo, até estou, mas isso é devaneio besta, coisa que só quem já foi ou é íntimo dessa coisa de escrever pode fazer compreensão comigo.

Durante todo o tempo estive lúcido, e nada foi feito contra minha vontade. A condição lá estava, flertei por algum tempo e fui. Dei de cara perna braço e o resto na automação dos dias. Uma outra instância de lucidez, muito bem conhecida por mim, que agora voltava a confinar minha atenção.

A minha atenção que de lucidez tem pouco verso, mas que, justamente por isso, torna mais agudo o olhar às coisas que me contentam, como o quedar incólume da manga recém madura aos meus pés. Será essa outra urgência de lucidez?

Deve ser. Sei é que os dias seguem por aí, a esnobar qualquer chance de reconciliação com aqueles que de automação só têm os aplicativos de um celular meia boca. E estão muito bem com isso.

Sei até de um que relegou todo aparato eletrônico à reciclagem do bairro e foi fazer rehab em uma clínica ao ar livre, com pés de jacarandá, ipês e famílias e famílias de bichos de pena; coqueiros a espanar sombra sobre o chão a cada passar do vento; campo aberto, espaçoso, bom pra deitar no verde e encarar Deus. Lugar onde moram os versos à espera de olhares atentos.

Soube por um amigo. História verídica, essa.

A questão é que agora devo voltar a atividade que sou pago para executar. Uns blocos de palavras por encomenda… isso lá é coisa a se fazer… Digo, até é se você quiser tirar uns trocados no fim do mês, mas acontece que a literatura tratou de me cultivar as mãos para outros fins.

Vez ou outra eu posto uns pedacinhos da obra de um grande.
Hoje foi dia de Pessoa:

Estou cansado, é claro

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…

E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos