O menino e o mar

Estou a presenciar tudo quanto é gente ocupando a praia. Turistas, gente que ali mora, pessoas dos bairros vizinhos e distantes. Pessoas que, no meio de suas idas e vindas, param na areia a fim de reduzir a velocidade dos passos – os seus e do mundo.

É um fim de tarde e o Sol busca abrigo detrás do oceano. Reparando com atenção a aquarela de cores que se tornara o mar à frente está um rapaz. Um livro repousa sobre a manta que lhe acomoda na areia. Os amigos, observo agora, estão a chamá-lo para a beira d’água, enquanto o rapaz, concentrado, acena negativamente ao pedido.

Não me é impossível imaginar que aquele sujeito está ali contra a vontade. Que foi convidado, quiçá intimado, a ir com os amigos ver o pôr-do-sol. É morador de uma cidade tropical e litorânea, devem tê-lo persuadido os amigos; a matemática é simples e o resultado é óbvio: não faz mais que a obrigação estar ali. Ainda que relutante, o rapaz se deu por vencido e encontrou-se em algum ponto daquela imensidão.

Desde que sentei, há poucos metros de distância, tive certeza que o mar havia feito um refém. Também notei que o livro permanecera inútil ao lado daquele que está ali por ter sido dissuadido a ficar em casa. O rapaz certamente o trouxe para evitar que seu olhar encontrasse qualquer outro. Já estaria onde não queria estar, não seria de seu encargo ter de iniciar qualquer tipo de interação. Tinha certeza de que o livro o transporia para qualquer lugar distante.

Pois aconteceu que o objetivo foi concluído sem que para isso fosse necessário folhear uma página. Qualquer coisa naquela moldura de fim de tarde o encantara como nada antes o fizera. O rapaz havia ido embora dali sem ter ao menos levantado.

Penso agora o que será do jovem quando o Sol dormir de vez. Quando o breu vestir de noite o mar e aquele espetáculo do qual somos testemunhas, neste exato momento, se despeça. Vai estar escuro demais para dar cabo à leitura preterida. Pode ser que fique frio demais para que ele permaneça ali. Pode ser que a manta que o assenta passe a aquecê-lo. Pode ser que aquele rapaz nem exista e eu esteja a divagar enquanto o leitor imagina o que digo estar vendo.

Das necessidades

O que descrevo em papel
são palavras afundadas
defasada consciência que me põe
a subir e descer escadas sem saber
se saio por cima
ou me perco por baixo.
À custo de muito escapou-me o poema
que atravessou o momento
mais inoportuno para
amanhecer.

Pois interrogue sereno
você que me lê:
– por que a Literatura seria abrigo
de um poeta assim?

E eu lhes devolverei:
– preciso mais da poesia
que ela de mim.

Tepos duros

– Senhor, bom dia, o senhor é o titular da linha?

– Sou.

– Então, eu falo em nome de uma instituição que reúne recursos e ajuda pessoas que sofrem com a seca. A gente sabe o sofrimento, né? Com toda aquela aridez, falta d’água, comida… é uma vida muito dura, essa dos nossos irmãos.

– É verdade.

– Estou ligando para saber se o senhor poderia contribuir com um valor de quinze reais. Estamos arrecadando dinheiro para comprar cestas básicas e distribuir pelo interior do estado. O valor que o senhor vai pagar só vai ser cobrado em outubro.

– Entendi.

– Nós temos parceria com várias operadoras de telefonia, e o pagamento vai acontecer através da conta de telefone, ou seja, será somado à fatura do mês de outubro o valor de quinze reais. O senhor poderia dar essa ajudinha pra gente?

– Bem que eu gostaria, moça, mas tô sem dinheiro. Os dez reais que me restavam, inclusive, foram doados essa semana pra outra instituição que nós aqui ajudamos.

– Olha aí! Deus tá iluminando a sua vida! Sei que Ele tocou o seu coração agora, pro senhor contribuir com os nossos irmãos lá do sertão, né?

– Eu gostaria de ajudar, moça. Mesmo. Mas eu não tenho um tostão.

– Mas o senhor só vai pagar daqui há dois meses. Já não vai dar tempo de estar com dinheiro?

– Provavelmente. A questão é que a conta de telefone daqui já vem aumentando progressivamente. Está difícil…

– Entendo. Só que esse valor nem é tão alto, senhor. Faça essa forcinha, nos ajude.

– Infelizmente eu não vou poder, moça.

– Se o problema é o dinheiro, o senhor pode estar contribuindo com o valor de dez reais. Nós temos parceria com a distribuidora de energia elétrica e a quantia vai ser somada à conta de luz do mês de setembro. Seria possível?

– Mas eu não sou o titular da conta de luz.

– Tudo bem, então. Que Deus te abençoe e uma boa tarde.

– Igualmente, senhora.

*Cada crônica publicada, de agora em diante, levará esta foto. O motivo: gosto dela.

Os meninos e suas equações

O Brasil conseguiu sua melhor colocação da história na Olimpíada Mundial de Física. Cinco garotos do ensino médio foram os responsáveis pelo feito. Trouxeram para casa um total de três ouros e dois bronzes. Na reportagem, apresentavam timidez à altura de suas habilidades com cálculos. Um dos integrantes da equipe, inclusive, é um conterrâneo – o que de modo algum me espanta, tendo em vista o histórico dos cearenses em provas e competições mundo afora.

Pois foi que Vitor, o conterrâneo, esqueceu que grande maioria das pessoas – eu incluso – que iria assisti-lo não são de proximidades com cálculos. Disse que na prova caiu o ‘’básico’’, e meteu-se a explicar uma equação que me faz franzir a testa neste exato momento. A fórmula era de um emaranhado, que foi preciso ser estampada na tela, como se legendassem a fala do rapaz.

Eu fiquei sabendo da conquista brasileira no Mercado, através do vizinho que me mostrara, com o orgulho, a reportagem. Esse mesmo vizinho tentava me explicar, entre pausas e pigarros, a tal fórmula. Involuntariamente, me atravessava a memória a época de escola, precisamente as aulas de física, em que minha presença só era percebida pelo espaço que ocupava, no canto da sala, encostado na parede, como se quisesse ser uma no momento da explicação do conteúdo, das fórmulas e de tudo que é pensado em linha reta, sem margem pra erro.

Que me perdoem os físicos, astrólogos, gestores de finanças, teóricos de exatas e toda essa gente dos números, mas sou simpático às coisas tortas. Me encontro na gente que atravessa atalhos para longe das verdades absolutas. Na gente imprecisa de nascença, que não faz a menor questão de descobrir se dois com dois faz quatro.

Não é um ataque gratuito aos apreciadores dos cálculos. Até tenho amigos que gostam. É que a coisa do inquestionável me incomoda de tal maneira que me ponho a ter a mente nublada para a questão.

Esta atitude só pode estar sendo confessada pelo sujeito frustrado com números que mora cá dentro, visto que entrou em vias de normalidade, neste país, lançar tudo que é comentário negativo em direção ao que desconhecemos; a tudo aquilo que nos lança olhar ameaçador. Ódio é reflexo do desespero.

Enfim, prometo tratar isso deitado no divã do consultório. Voltemos a história.

Durante a entrevista, um dos rapazes me esperançou. Primeiro, a repórter abriu as portas do meu imaginário quando se referiu aos cinco ali presentes como ‘’craques com jeito próprio de ver o mundo’’. Eu enxerguei uma brecha. Uma chance para descortinar minha mente cheia de hostilidade em relação ao tema.

O rapaz continuou:

– Quando as pessoas enxergam o céu, acham bonito…

(Na velocidade da passagem da vida diante dos olhos que enxergam a morte me invadia a ideia de que estava a surgir em rede nacional o primeiro jovem-poeta-físico que se tem notícia na história deste país miserável o único a sobreviver com vida no mar de números e equações o Escolhido para transitar entre a linha que divide a certeza do cálculo da subjetividade poética.)

– … o físico vê quantos fenômenos estão acontecendo agora.

O rapaz poderia ter abusado de um maior lirismo nessa parte? Provavelmente. Mas o dizer foi suficiente para me abastecer da imaginação pueril que tanto me apetecia.

Casmurrices à parte, temo que esses meninos tratem de seguir os passos de boa parte das jovens-promessas nacionais e se mandem para um país sério, que valoriza as ciências; um país munido do aparato necessário para o descobrimento e o desenvolvimento de mecanismos diversos, e acabem por nos deixar aqui, atrasados de moléstias, mazelas, totalmente entregues ao abatimento físico-moral do qual somos acometidos há tempos. Porque, convenhamos: de todas as Instituições do Brasil, a juventude dá provas de ser uma das poucas que respira sem ajuda de aparelhos.

Desacostumar

Escrevo sem que o dia tenha terminado. Ainda há resquícios da tarde, enquanto o resto dela já caminha em direção à noite. Aproveitando a luz paciente do sol, fui ao quintal assistir filme debaixo do pé de romã

Não havia nenhum tipo de aparato eletrônico responsável pela reprodução do filme. A imaginação é que projetava a película através da luz que, adentrando a copa das árvores, revelava suas formas na parede. A partir daí, fica livre para ser o que permitamos que ela seja.

Nesse momento, é importante deixar o filtro guardado em casa. Não o purificador de água, mas aquele que despurifica a criatividade. O que é supostamente necessário para que enfrentemos o cotidiano sem maiores problemas. Aquele que nos acostuma a aceitar as coisas como elas são. O que engessa, puxa pra baixo e derruba sem que percebamos o abismo do qual fazemos parte. Todos nós o utilizamos, e, na maioria dos casos, sofremos sem saber o motivo da dor.

Pois bem, retirado esse filtro sujo por natureza, as retinas cuidam do que a imaginação decidir.

Quando o filme acabou, entendi, finalmente, que parede em branco é possibilidade à espera. E para tal, é preciso abrir mão do motivo de todos os males: o costume.

O quintal do poema 

Existe um poema perdido no meu quintal.
Ele habita a curiosidade do gato que me acompanha.
A brisa que me encosta.
A folha da mangueira que cai
enquanto me encosta a brisa.
O meu nome eternizado
no chão de cimento seco.
A placidez do avião vestido de nuvem.
A lua que desponta no alto do azul.
O fim de tarde que invade a casa.
O espetáculo de cores que me transcende à vista:
o Sol a escorrer laranja rosa vermelho
em nuvens cinzas.

Há um poema perdido no meu quintal
e ele habita a certeza de estar
exatamente onde se quer estar.

Pardal cor-de-feijão

Já era tarde da noite quando um pardal, desses cor-de-feijão, pousou na janela da sala. Não era hora de passarinho estar vadiando escuridão afora, pensei. Seria convívio com algum amigo morcego? Talvez. Notei foi que o pássaro chegou e parou. Não esboçava reação. Como presenciei a chegada do passarinho através da janela, logo me foi absurda a possibilidade de que aquilo se tratava, na verdade, de um bicho empalhado, desses que standarteiam casas de caçadores cafonas.

Criei coragem e me aproximei. Nenhuma reação. Fiz barulho na cadeira, aumentei o volume da TV, direcionei o ventilador no rosto da criaturinha: nada. A noite era daquelas com deficiência de estrelas; a luz amarelada dos postes lá fora pouco evitava o breu que invadia minha casa e meu espírito. Por que diabos um pássaro haveria de estar na minha janela, à noite, longe da sua árvore e de toda sua gente? Os presságios, confesso, não me eram animadores.

Deixei a televisão no mudo e fiquei ali, a encará-lo, observá-lo, imaginando que ele seria uma entidade vinda do além com o objetivo de entregar sua mensagem, e, por conta da longa e cansativa viagem, estava agora repousando as asinhas cor de telha bem na janela da minha sala.

Acredito que, como instinto de defesa, fui induzido a alternativa de que o mensageiro na verdade havia errado de janela. O vizinho, um sujeito pouco adorado nas redondezas, que põe som alto no carro às oito da manhã de domingo, e que dia desses bateu na esposa porque ela chegou tarde em casa, esse que deveria receber a visita; esse é o verdadeiro anfitrião da entidade representada naquela coisinha estática no parapeito. Foi um erro de cálculo, só isso.

Depois de ter ligado todas as luzes da casa, ter buscado companhia nas vozes da televisão e de ter mandado mensagem para todos os amigos possíveis, comecei a assobiar. Quando criança, fui ensinado pelo meu avô a chamar o vento no assobio sempre que quisesse. O convidado em questão nunca se atrasava.

Pois bem, foi aí que a melodia do meu desespero desviou o bicho do transe em que estava. Ele espreguiçou-se, deu alguns pulinhos para lá e para cá, me encarou mais um pouco e partiu. Tomava o rumo da noite aquela interrogação de asas. Logo em seguida, fechei as portas e todas as janelas da casa. A vida segue curiosa.

O primeiro dia útil

Dizem por aí que as segundas têm o rosto triste de nascença. Quer deixar alguém pra baixo? Diga que está com cara de segunda-feira. Prego batido, ponta virada. Não imagino em que momento na história da humanidade definiu-se tamanha maldade. Decerto, alguém muito desgostoso com a vida deu início à falácia. O negócio foi tomando forma, viralizou no boca-a-boca e ganhou a eternidade, chegando até esta crônica.

Um casamento que acabou em divórcio, uma demissão no trabalho, o namoro findado pela distância: tragédias que podem ter acontecido nesse dia, em algum momento da história, e que certamente contribuíram para proliferação do mal agouro. Acompanhamos, no curso do tempo, as segundas tornarem-se a bola de ferro a ser arrastada pelos tornozelos de toda a gente.

Penso que, no caso da maioria dos brasileiros, tal aversão se justifica no trabalho que só encontra descanso nos fins de semana. Os dois dias precedentes à segunda-feira podem ser os responsáveis pela injustiça. São os pares de dias mais aguardados; tão aguardados que, por vezes, começam na sexta, ocupam desde mesas de boteco até a cama do quarto que, solitário, espera junto aos lençóis e travesseiros o desabar do corpo cansado.

A programação varia de pessoa para pessoa; certo é que os sábados e domingos são quase mais aguardados que data de aniversário para aqueles que labutam durante a semana.

Depois de um par de dias descansando, o que vem em seguida? Uma segunda, abrindo as janelas da realidade e trazendo à vista mais cinco dias de expediente. Não é impossível, até certo grau de compreensão, assentir o distanciamento das pessoas em relação ao dia mais injustiçado da semana.

O fatídico dia, aquele da Copa do Mundo, que juntou todo o país em frente à televisão a fim de ver a nossa seleção, que jogava em casa, ganhar da Alemanha e seguir adiante na competição… esse dia aconteceu numa terça-feira. Não foi numa segunda, é verdade, mas os supersticiosos mais afoitos afirmam com toda certeza que a culpa foi, em parte, do antecessor, que, devido a proximidade, deixou resquícios de tragédia no dia seguinte, culminando no dia que fez todo brasileiro aprender que uma ida ao banheiro de vinte segundos pode ser intermediada por dois gols.

E quem trabalha de domingo a domingo, por exemplo, tem com o que se queixar? Tem. De tudo, inclusive. Menos dos efeitos de uma segunda-feira no começo da semana.

O primogênito dia útil. O que começa desconhecendo a razão de começar. Porque, se soubesse o que as pessoas falam a seu respeito desde muito tempo atrás, faria qualquer coisa para que os finais de semana tivessem mais um dia de vida.