Embriaga-te

”Devemos andar sempre bêbedos. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.  Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te. E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: ” São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.”

Charles Baudelaire

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Palavras atravessadas e esperanças

Trabalhar como vendedor – ainda que o seja menos do que posso ter dado agora imaginação – me colocou a pensar. A desumanização do indivíduo é uma verdade sem rosto, e tudo que é posto diante dele é analisado como que de maneira subjugada, de valor rasteiro, quase sempre invisível, desmembrado de caráter, perspectivas, quereres e tudo aquilo que nos orienta a vida.

Digo, quando um gari é visto varrendo a rua, não estão, de fato, o vendo varrer a rua: estão vendo a vassoura para lá e para cá, encantada por uma mágica que não encanta nenhuma plateia. Quando entregam panfletos no sinal, não estão presenciando alguém esticar o braço com um papel na ponta dos dedos, pronto para ser entregue ao transeunte mais próximo: estão vendo somente o papel ali, esticado, com assunto que foge da atenção de quem recebe por educação.

(E àqueles que nem por educação recebem? Esses enxergam?)

Vejo meus colegas engolindo a seco tudo que é indiferença no dia a dia na loja: no jeito de olhar, na voz, na sílaba não respondida e na forma propositalmente desatenta de tratar aquele que lá está a serviço, cumprindo carga horária para além das 8h diárias, em pé, na busca pela comissão maior que a de ontem, para bater a conta do cartão que fecha amanhã, tendo que forçar uma simpatia que excede os limites da natureza humana.

Dia desses presenciei uma mulher fina, debaixo de suas rendas de praia e seus óculos escuros, fazer-se de surda quando perguntada ao menos duas vezes seguidas, pela funcionária da loja, se esta poderia estar ajudando o sublime espírito que estava descansando sua atenção nos produtos expostos na prateleira, enquanto flutuava a poucos centímetros do chão.

A feição dessas pessoas é muito semelhante em todos os casos: um desdém sem rédeas na fisionomia, como se estivessem num chiqueiro, à presença de porcos e suas merdas. Penso que devem ter medo. Medo de, por ventura, acabarem sendo contaminadas por alguma impossível bactéria que põe o hospedeiro em fuga do ambiente elitista que envolvem a si mesmos.

Tudo o que destoa de suas roupas de marca, da elástica pensão do militar falecido ou, simplesmente, do caráter pretensioso do qual se embriagam, me parece, provoca cegueira imediata e surdez instantânea.

Existem também outros indivíduos, os que nada possuem, mas se iludem a acreditar que sim e, para seguir as características daquelas classes, alimentam os mesmos hábitos, a julgar quem merece ou não o privilégio de sua presença. Desses últimos eu sinto uma pena cômica, e me rio com os meus quando viram as costas.

Se pudesse aconselhar essas pessoas, diria que não há razão para saírem de suas bolhas. Que Fortaleza é demasiada quente: cheia de gente feliz demais, fazendo coisas demais – em benefício deles, inclusive -, e que esta cidade vive muito bem com os corações que a ocupam.

Agora, se chegarem desarmados das vaidades, pisando nesta terra com os dois pés no chão, serão sempre muito bem-vindos; e, quando a questão do tempo for resolvida no transitar de seus dias por aqui, seus corações passarão a entoar a sintonia inerente dos corações de cá, para enfim tornar-se a harmonia que conecta, lapida e enobrece toda a espécie humana através de seus semelhantes.

Tempos idos

Vi passar hoje por estas bandas um caixeiro viajante. Coisa antiga, mais frequente em minhas épocas de menino aqui no bairro. Ainda que tenham sobrados tão poucos destes sujeitos, com suas malinhas e acessórios, cadeiras de balanço, gel para tudo que dói, como as pomadas de sebo de carneiro; ainda que tão poucos tenham restado, senti preservado uma parte de minha infância.

Daí em diante lembro das largas ruas do meu bairro, dos carros dos pais de meus amigos, sempre cuidadosamente polidos aos sábados, ao som de uma banda gringa de hip hop/funk dos anos 90, que também servia para ambientar as brincadeiras de bola, os pegas acirrados de patinete na descida da Rua Tenente Aurélio Sampaio, à vista dos cuidados e risadas das senhoras e senhores nas beiras das calçadas.

Lembro, saudoso, como se estivesse eu escrevendo agora enquanto carimbo de bola o gol na parede de minha casa, para delírio de todos os colegas do meu time e de minha mãe, ensurdecida pelas boladas e gritaria de gente miúda na rua. Lembranças tão caras a mim, tanta ternura abarrotando as ruas. Tudo era vontade despreocupada de viver.

Existíamos, todos, no enquanto das mazelas daquele momento: os atentados às torres nos Estados Unidos, a invasão no Iraque, as tensões no oriente médio, o clima de guerra assolando o planeta, e os apagões dentro da crescente crise no governo brasileiro… toda a atmosfera de urgência a envolver o mundo, e o mundo a resistir no pulsar pueril de nossas ruas.

É verdade que ainda vejo, aqui e ali, alguns ecos daquela época se manifestando nas meninices de agora. Vejo até que se esforçam, os pequenos, a exercer seu ofício de criança ao brotar pelas ruas aos montes, brincando e correndo e gritando pelos pés e cotovelos. Vejo, sim, que algo daqueles tempos idos ainda se preserva hoje – ainda que esteja longe de ser a mesma coisa.

São outros os tempos. As ruas perderam suas larguras, consumidas pelas casas que avançaram junto aos anos em direção ao asfalto, deglutindo tudo que um dia existiu na sua forma mais pura. Não só isso, mas os adventos da tecnologia, os celulares inteligentes, com seus aplicativos de paralisar atenção, com seus youtubers imbecis. Tudo que evoluiu nesses anos e que nos traz aos tempos de agora vai esmaecendo com melancolia àquela infância.

Os carros ocupam a terra mais do que gente, a resistir no tempo de vida mais do que os homens, posto que a violência urbana, principalmente em Fortaleza, tem a estatística dos países em guerra. Daí o receio das famílias em permitir que suas crias ocupem o seu espaço de origem.

São essas imagens, os instantes vividos para sempre naquela época minha, que me abrandam as angústias neste ano de 2018. O país que vive um colapso político-social, com suas bolhas de pessoas digladiando umas as outras; o país que sente, assim como eu, o definhar do espírito no correr dos anos até aqui, é o mesmo que, em tempos outros, celebrou a vida no acreditar inocente de que ela, a vida, seria justa e boa de viver.

Esta vida

O mundo é outro
os carros são outros
a população é mais populosa

os grilos, quando cantam
estão a pedir ajuda
e os sapos, pobres anfíbios
já não saltam como ontem

mas isto não é uma fábula.

o clima está abafado
tal como o grito dos periféricos
ante a pesada mão do Estado
incidindo sobre a pele
da cidade grande.

as poças nos asfaltos são mais largas
e diminuiu-se a inspiração
na melodia do céu
de todas as tardes.

o cajueiro está seco
o pé de jambo perdeu a cor
e a mangueira solitária anuncia:
– a vida encurtou-se.

(vive-se melhor quem pouco se inquieta:
isto é tudo o que não sei)

Pois o mundo é outro
os carros são novos
a população é mais preguiçosa

e as brincadeiras de roda beiram a extinção.

Das tormentas do homem (pt. 2)

Passados alguns poucos dias desde a primeira parte desta história que finaliza hoje, com a devida esperança de que o desconforto ou qualquer coisa que tenha despertado àqueles que a acompanharam tenha se dissipado – por alguns poucos, ao menos – continuo aquilo que ainda hoje me enrubesce de raiva quando volto a lembrar.

Já no terceiro dia, rumo ao mesmo lugar, na mesma parada de ônibus dos subsequentes dias aqui compartilhados, eu estava sozinho. Não haviam idosos, nem jovens, nem aqueles de meia idade por perto. A senhorinha, frente aos acontecimentos, aparentemente abriu mão da pontualidade que lhe é característica para não ter de lidar com a grosseria alheia. Ou desistiu de ir ao destino que lhe esperava, simplesmente.

O motorista em questão, e agora devo ser justo, seguia pontualmente o itinerário. Às nove e meia da manhã, vinha lá com seu ônibus e sua gente aparentemente acostumada com os desprazeres daquela presença à frente do volante.

(Deixo para o leitor o diagnóstico do que pensavam os passageiros que lá dentro se acomodavam quando ouviam da boca áspera que os conduzia que o ônibus estava com defeito, tendo a certeza de que ele não mostrara nenhum sinal de mau funcionamento até ali; e quando, ao dobrar na rua assegurada pelo motorista como o sítio escolhido para tratar de consertar o que misteriosamente havia quebrado, se revelasse a mentira no continuar do trajeto.)

Dei sinal, com a língua pronta e ensaiada para responder à esfarrapada desculpa de sempre. Mas, para minha genuína surpresa, dessa vez me foi permitido o ingresso. Indubitavelmente, fui atingido pela ideia de que o problema do motorista estava no embarque de idosos.

Com suas artroses e osteoporoses e tudo que vem com a idade para nos entravar o passo, é claro que o itinerário, tendo seu horário tão bem respeitado até aqui, sofreria com o atraso dos velhos; e o pobre motorista, cumpridor do honesto trabalho de levar cada vivente para os destinos que lhes cabem, não poderia sofrer um vexame desses.

Do assento em que me acomodei, reparava pelo retrovisor um homem de mãos ao volante e espírito aflito. Quantas tormentas devem seguir o dia deste sujeito, desde o momento que põe os pés para fora da cama até a hora em que as recolhe para seguir rumo a mais um dia, este inevitável recurso da natureza, que nos abranda as tormentas do espírito e que, neste caso, parece ser incapaz de tal tarefa.

Das tormentas do homem

Há dias em que a casa, quando se desprende da nossa presença, denuncia em silêncio, quando pomos o pé para longe dali, que este dia será de algumas tormentas, quase todas comuns, coisa do cotidiano: como o céu que, mesmo dando alerta de cinza para acima das cabeças, aproveita o desleixo que acompanha a pressa e, em sobreaviso, como se aconselhando, solta ‘’e o guarda-chuva, não leva?’’.

Mas, há dias que a tormenta aplaca o espírito. Uma coceirazinha atinge o pé do ouvido e sentimos todos, mais dia menos dia, quando acontece.

Pois que esse dia me achou. A parada de ônibus já tinha dos seus quando me pusera na soma dos que esperam. A companhia da senhora que marca presença pontualmente no mesmo horário que eu também por lá estava, e com ela a reclamação audível de sempre: os motoristas daquela linha são todos uns grosseiros.

Disso eu sabia. Todas as almas que sobem naquele ônibus sabem. Mas, um motorista em questão, do alto de sua ranzinzice, trabalha como um homem encalecido de tristezas e que, por isso, as transfigura, na contrariedade do delicado ofício de transportar vidas, em grosseria gratuita no espírito de gente como aquela senhora.

Quando por fim chegou, o dito motorista não parou ao sinal comum daqueles que o esperavam. Aliás, ele até parou, sim, mas para avisar, com nublado ódio por entre as palavras ditas: ‘’não pode subir, o ônibus está com defeito, vou parar ali na frente.’’

Tudo bem. A quem interessa andar um quarteirão em um ônibus condenado ao conserto em via movimentada?

No entanto, no dia seguinte, cópia fidedigna do anterior, com a diferença de estar na companhia não de uma, mas de duas senhoras idosas, a cena se repetiu: o mesmo delicado motorista, com a mesma delicadeza de sempre, interrompeu o ingresso de uma das senhoras que tomava a frente com o mesmo tom nos dizeres.

Imediatamente, ao ouvi-lo começar a mesma frase, me afastei. Disse em seguida às senhoras e a todos que ali estavam que a mesma atitude foi tomada por ele no dia anterior.

Em meio a protestos e palavras que não repetirei na crônica, mas que são de teor certamente imaginado pelo leitor, comecei a simular à mente situações de confronto com o sujeito, quase sempre com fins violentos, em ato-reflexo de quem precisa descarregar o peso da raiva que cai sobre a cabeça e as vértebras que a sustentam.

Aos que aqui chegaram, compartilhando ou não deste sentimento que nos é a todos natural, peço que acompanhem a continuação da história na próxima semana, posto que a crônica já muito se alonga, e é de meu encargo preservá-los do cansaço.

Até.

Matéria prima

Estou eu pensando nas ruas de Fortaleza. Daqui de dentro avisto tempos idos em passos que se misturam pelo Centro. Não mudou muita coisa desde que, menino, vinha por estas bandas na companhia de minha mãe em busca de algo, quase sempre um utensílio doméstico, de preço justo, de modo a não nos subtrair todo o saldo do fim do mês.

O furor da região ainda me contagia e, diante disso, acompanho agora a menina pequena atravessar a poça que se forma à beira da calçada. Sem ajuda do responsável que lhe acompanha, salta, em ato inocente de independência, em direção a rua que dá para um Supermercado, destino dos dois.

Tem um ar de transcendente o saltar inocente dos miúdos, como se o desprender do chão, ainda que por alguns segundos, lhes aproximassem do céu; como se reflexo tão corriqueiro – o de não se molhar frente a uma poça de água – lhes concedesse caminho para perto de São Pedro, dono dos humores do tempo.

Posto que o céu é de nublagens típicas desta época do ano. Fortaleza se desmancha em chuva: sinal de que mais alagadiços se formarão nas beiradas de calçada ao longo do período; e que crianças e adultos e todos aqueles que marcham em suas direções terão a chance de cortar caminho, ainda que por alguns milésimos de segundo, para o teto que nos cobre a todos.

Obviamente, sem que percebam, estão eles contribuindo para o ofício deste que vos escreve, em dia de torrenciais chuvas na capital, provando, mais uma vez, o que afirma o capítulo 1, tópico 3 do manual do cronista:

– Tudo o que é desinteressante ao primeiro olhar servirá de matéria-prima para a crônica.

O amanhã

É um exercício de coragem
ler  o jornal do dia.
A febre é amarela
e acompanhada de ignorância.

Daqui acompanhamos, de estômago embrulhado
o vidro preto dos smarts
refletindo mais verdades
que as notícias nos jornais.

O país tem altura de montanha-russa
mas a direção é sempre oposta
mas a queda é sempre alta
em um declive infinito.

O amanhã, senhores
será comemorado
por não existirmos.

(25/01/2018)