Letárgico

Todo poema escrito
Todo texto corrido
Soa pueril.

Que vale escrever
Em tais circunstâncias?
E a vida?

De que vale a palavra de amor
ou a encomendada
gélida e pálida?

De que vale a gordura a queimar?

A sanidade, Deus!
Alguma serventia?

E deste poema
Que pouco raciocina
Que tanto não diz

Alguém saberá
O que não fiz?

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Alta estação em Fortaleza


Ao redor dela, uma grande quantidade de pessoas se avolumava: queriam dar um rosto àquilo que amortecia os ouvidos. A banda-família é composta por sete integrantes, tendo estado um deles, passeando pelos seus dois anos de idade, a se entreter com assuntos mais urgentes do que um grupo de pessoas tocando Você, de Tim Maia.

Encantado com a cena atípica, o público, formado sobretudo por sacoleiros e vendedores e clientes daquela região, detinha suas obrigações em volta do grupo, acabando por impedir a passagem dos demais pedestres, o que também fez aumentar o número de espectadores do concerto – para a benesse dos artistas, que saíram de lá com o chapéu repleto de agrados.

Fui um desses, inclusive. Depositei minha quantia e me afortunei com o terno sorriso de agradecimento da matriarca dos que ali tocavam. Também naquele espaço, a cerca de vinte metros, outro artista, este solo, valseava o seu arco num violino lamentoso.

Pois é época de alta estação em Fortaleza, cidade-destino da gente que chega de toda parte do país. Também época em que cada um dá seu pulo pra embolsar um extra no final do mês. E se uns possuem a graça, ainda que árdua, de conseguir a grana através da música, outros, como se pôde enxergar sem grande esforço nos sinais da capital durante as festas de fim de ano, não têm a mesma sorte.  

Como podiam ter? Se iam apelar a ajuda de carro em carro, de mão em mão, a fim de passar com o mínimo de dignidade a época do ano em que as mesas de nossas casas se recheiam de aperitivos e bebidas e aves que, em alguns casos, acabam por ocupar o espaço que lhes resta no fundo da lata de lixo.

Mas, eis que chega finalmente a alta estação! Praias ocupadas por sotaques distintos; pontos turísticos de artesanato e comidas típicas da região finalmente entupidos de gente! A economia respirando, respirando, respirando: é o fomento daquilo que há tempos vem mal das pernas!, o vislumbre de uma época há tempos não vista!

E é também uma época sem precedentes na história do Ceará: o aumento constante da violência urbana culmina na maior onda de violência já registrada no Estado, que clama por ajuda a quem puder atender, para conter ônibus, carros, delegacias e tantos outros que queimam na madrugada; para conter a onda de terror que assola a cidade, sitiada – sobretudo nas periferias.

Posto que, convenhamos: a região mais perto do litoral, aquela que é podada e aparada e que recebe mãos e mãos de verniz para acolher a gente que chega de toda parte; essa região, que jamais vai ser palco de uma bala perdida é a menos atingida pelo caos que se abate sobre nossas cabeças. Por que razão?

Certo é que, enquanto outros se preocupam em vestir azul, rosa ou estão a fantasiar-se de laranja, meu Estado ganha vieses de gangorra: de um lado, a menina praiana aos olhos de todo o país; do outro, o mais volumoso, e que está mais próximo das mazelas terrenas – as mesmas que rebentaram no que agora conhecemos por caos.

É, é alta estação… estamos em época de adornar a calamidade para que tudo fique suportável – para alguns.

A vida é boa


Em meio às urgências das rodovias e seus grunhidos, um homem, de aparente meia idade, em ação tão natural quanto maldizer o calor que faz em Fortaleza, se caminhou até o galho de uma árvore que nos ambientava, na parada de ônibus, e retirou algo de uma de suas extremidades: uma espécie de membrana, emulando uma matéria plástica, envelopava o cacho de folhas já morto.

Ele apanhou, examinou com a atenção de um biólogo recém-formado, pareceu desenhar no canto da boca um sorriso e, finalmente, guardou o artefato no bolso. Quando descortinou a mão, lá vinha seu ônibus. Deu passagem aos que se enfileiravam às suas costas e embarcou.

Logo acima das cabeças, paralelo aos prédios, um pássaro brinca de voar, e logo se juntam a ele os seus iguais. O vento bate, a árvore treme, a poeira invade os olhos e, alheios ao que acontece no chão, os bichos de pena se divertem.

Sorte a deles, que enxergam tudo de cima. Tudo assim pequenininho. Azar o nosso, que as vistas seguem a distorcer tudo, enxergando torto, amplificando o desimportante; transformando em monstruosidade, para além da realidade, a inocente formiga.

Naquelas mãos que se unem no atravessar do sinal vermelho reside o cuidado. O cuidado de saber-se pequenino. O cuidado de reparar-se então diminuto, ínfimo, num mundo repleto de coisas imensas. Mãos que se enxergam no juntar de suas palmas, no enlaçar de seus dedos, e na alegria de perceber-se um só, sendo dois.

E que, na busca pelo acréscimo de infinitos centímetros às suas alturas do espírito, justamente para ser capaz de superar o olhar insensível do mundo, é que se unem.

Naquelas mãos que agora caminham no lado oposto da pista, cujas cabeças agora enlaçam em volta de si um sorriso vitalício, percebo que a vida pode ser boa. Pode ser boa porque, vez ou outra, a gente repara a agulha maior do que todo o palheiro; porque o vidro que cerca a bolha é suscetível às rachaduras do que é real, vivo, transparente; porque a linha reta, aqui e acolá, se cansa de ser reta e faz curva.

A vida é boa porque cada ser humano que compõe essa débil espécie, ainda que com suas quimeras, está apto a corromper de ternura a palidez dos dias.

Costurando os dias

Bolsonaro venceu, e é agora o novo presidente da república. Mas não é disso que quero falar. Quero na verdade exercer minha cidadania e tratar do que importa: os ipês na cidade de Fortaleza. Sabia que são eles os anunciantes da primavera por estas bandas? Pois é, são confessos culpados pelos furtos de olhares e consequente arrebatamento de transeuntes. Uma espécie de fogo-amigo que aquece o espírito.

Peço que também se deixem atingir, e não somente pelos ipês.

E a placidez de um banho autolimpante felino? Como se explica a elasticidade com que se movimentam, quase como invertebrados? Sou arrebatado sempre que vejo em prática a profilaxia dos bigodudos. Sem querer paro de fazer o que estou fazendo para ser espectador do teatro. Um tempo muito bem gasto, devo admitir.

Assim como o dia em que gastei uma infinidade de segundos no apreço de um Mural, na Av. Domingos Olímpio. Ligeireza conveniente para quem conduzia o ônibus; ruim para quem ia ficando órfão da obra a cada metro avançado.

A imensa parede, simbolizando a mãe-África e a força da mulher negra, a segurar um sem número de gente às costas, ainda resiste aos desgastes do tempo. Faz alguns anos desde que a vi pela primeira vez, mas, sempre que passo por lá, meu olhar confessa que vai ser para sempre inaugural.

Ah, o olhar inaugural… Tento tanto praticá-lo, sem nem ao menos saber como. E é possível? Acho que sim. Carece ao indivíduo hábil ser um observador, disto eu sei. Vou mais além no escuro: o refúgio do olhar inaugural está no espírito curioso. Sobretudo naqueles que se encantam com o pouco, o ínfimo.

Penso agora que ele deve ser, na verdade, uma competência íntima ao indivíduo. Assim era com Manoel de Barros, assim acontece com a criança; e o gato, pasmem, também é detentor do olhar primário e pueril lançado aos arredores já acostumados com nossa presença.

Pois bem, agora devo tratar daquilo que de fato vem tomando os nervos dos mais adultos.

Marcas de expressão. Essas do rosto, mesmo. Confesso ser descompensado da habilidade em identifica-las. Deve ser pela falta de importância.

No entanto, quando questionado, e após o emprego de minuciosa atenção, consigo dizer que aquela linha que se desenha na testa de Fulano é do signo de leão; aquela outra acolá, essa lá no canto, tem a mesma timidez dos que começam o primeiro estágio. E pode ser que ela nem vingue, e aí rosto fica por isso mesmo. Mas, no caso de ter tomado fôlego e avançado sem freios, tal qual o desenho das raízes entranhadas sob o solo, que seja. Por acaso, algum dia, alguém confrontou o Tempo e ficou de pé pra contar a história?

Tenho certeza que não. Mas a História, irmã do Tempo, tece suas linhas no paralelo de sua chegada, que é eterna. E ela há de lembrar para sempre, assim como eu, do dia em que pessoas saíram às ruas com bolos, cafés e afeto, tudo posto em cima de mesinhas, dividindo espaço com banquinhos, como se revivendo de súbito lembranças da casa de vó.

Ela, a História, há de lembrar do episódio em que pessoas tentaram, na palavra, na troca e permanência de olhares generosos, evitar o que agora já se configura em realidade. Mas essa comunhão por intermédio da presença, da conversa, do aprendizado adquirido e compartilhado… isso é coisa inestimável.

O exercício de ser gente, sobretudo em tais circunstâncias, me emociona. E cabe aqui uma oração: que nunca possamos desaprender, ainda que as ditas circunstâncias trabalhem em seu prejuízo, a ser gente. A ser gente que se emociona, sobretudo.

É triste o escrever do óbvio

Foto: Fábio Motta/ Estadão

Seguimos na mesma: face a face com a iminência de um governo fascista. Penso que esses que agora apoiam, bradam aos mil ventos, que fazem ‘’campanha de graça’’; penso no quanto essas pessoas serão cobradas pela história. Mais do que isso: estão nesse momento assinando um documento de suicídio social, atestada na contribuição que conferem a eleição de um candidato totalitarista.

Desejo que a mais profunda amargura acometa seus espíritos. Entretanto, em caso do ser rastejante vir a ser eleito, não direi que avisei. Nem irei lembrar dos alertas que compartilhei, com amostragem de fatos e etc. Farei menos alarde ainda sobre minhas apreensões à época, que buscava fazê-los mudar de ideia, reverter a escolha irracional de seus votos… não, isso não.

Serei aquele que, sorrateiro, sem muitas palavras, passa a conduzir o enfermo rumo ao seu leito, até que ele, o enfermo, tome finalmente nas mãos as rédeas de sua consciência, podendo ela ser talvez até munida de alguma misericórdia, mas que irremediavelmente irá conduzi-lo ao abismo da vergonha humana.

Puseram nas cabeças a existência de um inimigo. É de consenso geral que, para a polícia, sobretudo no Brasil, o inimigo sempre teve cor e classe social. Somos espectadores, com certa constância, dos casos que assolam o Rio de Janeiro.

E estamos a viver, nessas eleições, algo que finalmente se pôs de pé, findando o estado de hibernação em que se encontrara: às classes média e alta, o inimigo se inclina para a esquerda – e, seguindo a lógica própria de uma planta, aqueles que discordarem de suas verdades imbecis estão fadados ao mesmo caminho.

O candidato fascista não comparece aos debates, e já disse que não pretende – estratégia, segundo ele. Enquanto isso, sua militância apalermada compartilha uma profusão de mentiras nas mídias sociais. Gente de todo tipo parece acreditar, e aí o seu trunfo: ignorantes e subletrados – e não esqueçamos também daqueles de índole simplesmente corrompida – fazendo campanha virtual, compartilhando inverdades, em resposta irracional ao ódio que nutrem – e com o qual surfa deliberadamente o seu líder supremo – a um partido. Estão esses a cravar a faca no próprio peito, enquanto gargalham durante o grotesco processo.

A Justiça inclusive está a tomar severas apunhaladas do TSE, instituição que vem fazendo vista grossa e se mostrando conivente com os absurdos dessa eleição. Não me recordo de um momento em que, na história da breve democracia desse país, a divulgação em massa de mentiras tenha sido determinante para a vitória de um candidato. Não nas proporções em que estamos vivendo.

O que me faz lamentar o perfil pré-histórico dos partidos quanto ao uso das novas tecnologias. Não acompanharam o seu desenvolvimento. Logo, desconhecem a dimensão de sua força. Quer dizer, estão conhecendo agora, quando já sentem o bafo ácido de seu resultado nas fuças. O Coiso – ou seja lá quem cuide de suas diligências eleitorais, visto que porta não pensa – foram capazes de explorar todas as possibilidades dos canais de mídia social. Bom pra eles, ruim pra gente. Mas, lembremos: a História é insone.

Sei é que corremos, no ritmo mais desvairado possível, em direção à barbárie. E vamos por livre e espontânea desinformação.

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

Leandro Gomes de Barros

Tá todo mundo morrendo

Em virtude do trabalho e do amontoado de afazeres diários, tenho estado muito pouco em casa. Quase nulo é o tempo restante para escrever durante a semana.

Não é situação inédita àqueles que exercem o ofício há mais tempo. No entanto a adaptação está sendo digerida, e por isso os malabarismos feitos vêm me causando certa excitação: são excertos gravados no bloco de notas do celular, palavra solta escrita às pressas na mão, frase dita em voz alta para fincar sua presença à memória…

Todo e qualquer recurso para registro vem sendo utilizado. Posteriormente, recorro aos escritos. E eles renascem, no gênero que me for conveniente, na alvura do papel. Lhes conto isso porque, pondo em prática todo esse processo, pude reviver uma situação um tanto curiosa, mas não menos angustiante.

Dia desses, após o embarque rumo ao trabalho, me acomodei, de pé, frente a um sujeito meio destoante dos demais passageiros. Conversava com duas pessoas, e, juntos, nós três fechamos quase que um cerco, uma plateia em volta do homem. O discurso era alto, como se precisando verbalizar às alturas para fazer lembrar a si mesmo uma época sombria, e, por conseguinte, afugentar qualquer fresta de lembrança que pudesse estar à espreita, no aguardo de tornar novamente realidade aquele absurdo.

Nos disse estar respondendo por treze processos. Ao redor, pessoas se aprumavam nas cadeiras. Pigarros puderam ser ouvidos. Alheio ao público fora do círculo, o homem continuava seu monólogo para a plateia atenta:

– Já viu aqueles filmes de gladiador? Eu já vi a mesma coisa, só que ao vivo. Briga de facção. É só a galera cortando a cabeça da negada! – Disse, ao mesmo tempo que gargalhava. – É cruel…

E do posterior silêncio, um abismo.

Nos dividiu o relato de sua presença nos conflitos de facções dentro do sistema carcerário. Viu a altura de homens ser reduzida ao pó, logo depois de terem sido queimados junto a pneus. O que mais deve ter vivido esse homem? O que deve estar gravado para sempre à sua memória?

Isso nada difere das atrocidades cometidas em conflitos de escala mundial. E está acontecendo aqui, do nosso lado. Nossa espécie se digladiando enquanto estamos para lá e para cá dentro das nossas pressas, com o esparso de atenção disferido ao que, confessemos, pouco nos importa.

Convertemos nossa energia, essa que nos ergue todas as manhãs, na busca por um lugar de todo comum. E o imperioso meio para este fim, percebo agora, é deixarmo-nos conduzir pela indiferença dos dias.

O sujeito esteve diante da pura selvageria, essa que é tão intrínseca aos homens. A dolorosa existência dessas imagens pôde ser vista respingar em uma de suas confissões, em dado momento:

– Eu parei de fazer isso… o cara não consegue dormir de noite, barão.

Sei é que a história toda me abalou. Me pôs a pensar, e o pensar só me põe mais abalado, visto que é agravado em mim o sentimento de impotência. Só me atenua o espírito passar adiante, como estou fazendo, o relato do sujeito.

Quando já me preparava para dar o sinal de desembarque, desmembrando a plateia até ali formada, pude ver a mulher que compunha o trio de espectadores mostrar ao homem uma foto de alguém próximo, e que, pelo visto, foi um conhecido em comum entre os dois:

– Eu lembro dele!! Comprava droga comigo quando eu vendia. Ele tá é lombrado nessa foto aí – disse, soluçando de rir. Depois, recomposto, emendou:

– …Égua, mermão, tá todo mundo morrendo…

O silêncio das coisas findas

Faleceu, nessa semana, a esposa de um vizinho da loja em que trabalho. Sei quase nada sobre a relação que mantinham os dois, mas, pelo que pude observar entre as conversas diante do ocorrido, a indiferença era a mais próxima das realidades do casal. Aquilo responsável pela união entre duas pessoas já não fazia morada nos dois, sobretudo nele, como me disseram. A despeito disso, distinguir se mentira ou verdade o que ouvi, no específico desse caso, não compete a mim.

Mas posso garantir que o homem se abateu com a notícia. Lhes conto porque vi, do alto de seus sessenta e poucos, um sujeito sempre simpático e sorridente, credenciais mais que imprescindíveis para quem trabalha com turismo, retrair ao semblante tudo aquilo que se cria na tristeza. Compartilho agora porque pude ver o senhorzinho, que trabalha de domingo a domingo, todos os dias do ano, pedir que fosse embora a funcionária, para em seguida fechar a loja no meio do expediente. Também não levantou as portas no dia seguinte, em anúncio claro de luto.

Afinal pude compreender, com menos dificuldade, que o companheirismo, a estima, as gerações postas no mundo, o íntimo compartilhado e tudo que decorre ao longo de uma união não arreda sua presença. Nem – e muito menos, acredito – em face às dificuldades impostas pela doença, no consequente agravamento da saúde, dispondo ao enfermo um coração enorme de chaga e esperança.

Esperança de que passe a regredir, a doença, e, como se voltando no tempo, no princípio da união dos dois amantes, se instaurasse como única e inabalável possibilidade a Vida: plena, incapaz de ouvir o esmaecer de sua essência frente o badalar do último instante. É perpétuo, isso do cuidado e alento cultivado ao longo da relação. Transcende às estocadas da Morte.

Sei é que senti o peso da atmosfera que se abateu no lugar, após a notícia. A loja, quando fechou, tornou o espaço um tanto desértico e sombrio.

No entanto o Tempo seguiu, pondo às vistas a sua particular indiferença, com os negócios do lado de cá em plenos pulmões: continuaram a chegar ônibus de turistas, clientes locais, fornecedores de produtos; seguiu-se o curso natural de um dia de trabalho, e pouco se pôde fazer a respeito.

Acabei por notar que as brincadeiras e conversas entre meus colegas aconteciam de forma comedida, como se o luto, de maneira inconsciente, lhes afligisse o espírito.

Até que foi-se apaziguando o tom de voz, a eloquência das gesticulações cotidianas. Até diluir por completo o ânimo, a vontade de ali estar. Como se oprimidos pelo abatimento, que foi-se avolumando até alturas invisíveis e pouco suportáveis. Foi quando se despediram os turistas e seus ônibus, bem como os demais clientes, que já se organizavam em desocupar o espaço. Reduziu-se ao chão as demais portas de loja.

Chega o fim do expediente. Instante em que os funcionários finalmente rumam ao descanso. Instante em que, até que se aproxime o dia seguinte, transita por aquele lugar o silêncio, o silêncio das coisas findas, a inundar por completo os interiores da noite – e os nossos.